O Gênio Maldito.

A trajetória de Plinio Marcos começa  na cidade de Santos (SP), os primeiros passos aconteceram no circo, como palhaço Frajola, mas Plínio ainda teve outras profissões – funileiro, vendedor de livros em uma banca espírita e tarólogo. Além de estivador no cais do porto de Santos e cjogador de futebol no time juvenil da Portuguesa Santista, no Jabaquara. Todos diziam que era um excelente jogador. Mas, em compensação, na escola – como ele mesmo dizia – “quando pequeno, era tido como débil mental. Não conseguia aprender. Meu poder de concentração era nenhum”. Isso, segundo Plínio, era devido aos métodos escolares da época.
Em 1958, o segundo ato da vida do escritor e dramaturgo entrou em cena. “Houve um caso, em Santos, que me chocou profundamente: um garoto foi preso por uma besteira e, na cadeia, currado. Dois dias depois de sair de lá, matou quatro dos caras que estavam com ele na cela”, relatou o autor, na época do ocorrido. Deste acontecimento nasceu “Barrela”, escrita por Plínio aos 22 anos de idade. A peça foi mostrada para Pagu (Patrícia Galvão), que achou os diálogos tão poderosos quanto o texto de Nelson Rodrigues. Em seguida, Pagu levou o texto para Pascoal Carlos Magno – responsável pelo setor cultural e universitário da Presidência da República no governo de Juscelino Kubitschek –, que realizava o Festival Nacional de Teatro de Estudante, em Santos, e, como relembrou Plínio em relatos publicados, “ele fez um puta escarcéu, descobriu um gênio.”
Os ensaios começaram no início de 1959 e logo o espetáculo foi encaminhado para a censura federal, que proibiu a apresentação. Então, Pagu entrou em contato com Pascoal, que faz a polícia reconsiderar a proibição da peça. “Barrela” foi apresentada no dia 1º de novembro de 1959, no palco do Centro Português de Santos. Mesmo com tamanho sucesso, a peça foi censurada na apresentação e permaneceu proibida por mais 21 anos. Plínio, então, escreveu seu segundo trabalho: “Os Fantoches ou Chapéu sobre Paralelepípedo para Alguém Chutar” – reescrita depois como “Jornada de um Imbecil até o Entendimento”. Pagu, na época, escrevia crítica teatral para o jornal “A Tribuna de Santos” e colocou uma foto de Plínio com gravata borboleta e a seguinte manchete: “Esse analfabeto esperava outro milagre de circo”. O trabalho tinha sido um fiasco.

Novos Caminhos
A vinda para São Paulo aconteceu em 1960. Para garantir o sustento, Plínio era uma espécie de faz tudo. Trabalhou como camelô, ator e técnico da extinta TV Tupi, quando estourou nacionalmente, em 1966, com “Dois Perdidos Numa Noite Suja” – censurada logo ao chegar no departamento. Com “Navalha na Carne” (1967) ocorreu o mesmo e a única saída encontrada pelo grupo foram as apresentações na casa de Cacilda Becker, que cedeu o espaço para o espetáculo. A liberação do texto virou causa nacional e contou com o apoio dos principais nomes do meio artístico e cultural.
No Rio de Janeiro, “Navalha na Carne” foi apresentada, às portas fechadas, no Teatro Opinião. O exército cercou o teatro e proibiu a apresentação. A atriz Tônia Carrero comprou a briga e levou o espetáculo para uma casa vazia, no morro de Santa Tereza. Para despistar, Plínio deu entrevistas aos jornalistas, enquanto o povo recebia senhas com o endereço da casa da Tônia, que ficou lotada e tinha público para outro espetáculo.
“O Abajur Lilás” (1969) foi outro texto proibido. Tinha Paulo Goulart na produção e Nicete Bruno e Walderez de Barros no elenco. Após uma consulta informal à censura, veio a resposta negativa. Os ensaios foram interrompidos. O texto estaria liberado para montagem somente em 1975, o que não aconteceu. O advogado Iberê Bandeira de Melo entrou com recurso contra a proibição. O próprio Ministro da Justiça, Armando Falcão – governo Geisel – reiterou a proibição da peça, sob a alegação de que ela atentava contra a moral e os bons costumes. A luta deu-se de instância em instância, até chegar ao STF (Supremo Tribunal Federal), em Brasília. A peça teve um único voto favorável do então juiz Dr. Jarbas Nobre.
Em 1979, um grupo de atores juntou-se clandestinamente e formou um grupo chamado O Bando para montar “Barrela”, que completava aniversário de 20 anos de censura. A peça estreou em dezembro, no porão do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). Os ingressos eram vendidos pelo próprio elenco que, nas ruas, os ofereciam para as pessoas. Todas as sessões ficaram lotadas e o espetáculo era realizado às sextas-feiras, à meia-noite. As peças “Barrela” e “O Abajur Lilás”, em 1980, foram liberadas pela Censura Federal. O Bando transfere-se para o Teatro Taib e as peças “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, “Oração para um Pé-de-Chinelo” e “Jesus-Homem” são montadas.Isso é um pouco desse gênio Maldito.

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